
Nem todo encerramento pede balanço. Em muitos casos, ele pede pausa. Ainda assim, em outros, pede apenas tempo suficiente para que o excesso finalmente se acomode. Ao longo deste ano, atravessamos histórias, imagens e personagens em um ritmo quase contínuo. No entanto, quando o calendário se aproxima do fim e o barulho externo diminui, nem tudo permanece com a mesma intensidade.
Com o passar dos meses, tornou-se cada vez mais claro que assistir deixou de ser apenas um hábito automático. Aos poucos, esse gesto ganhou outro peso. Em vez de simples distração, passou a funcionar como forma de permanência. Não porque resolvesse algo, mas justamente porque não exigia resolução. Assim, as telas ocuparam um lugar menos ruidoso e mais íntimo: estiveram presentes quando o dia foi longo demais, quando pensar parecia excessivo e quando o silêncio se tornava difícil de sustentar sozinho.
Além disso, essa mudança não aconteceu de forma abrupta. Pelo contrário. Ela se construiu lentamente, quase sem que percebêssemos. Enquanto buscávamos histórias, não procurávamos necessariamente impacto ou novidade. Muitas vezes, procurávamos algo que nos acompanhasse sem pedir atenção total. Algo que aceitasse nossa presença incompleta. Dessa forma, assistir deixou de ser desempenho e passou a ser convivência.
Quando Assistir Não Significa Escapar
Durante boa parte do ano, tornou-se evidente que nem sempre buscamos histórias para fugir da realidade. Em muitos momentos, buscamos exatamente o oposto: permanecer nela com um pouco mais de fôlego. Por isso, narrativas que permitiam pausas, repetições e retornos ganharam outro valor. Um episódio visto sem urgência. Um filme interrompido e retomado dias depois. Uma história acompanhada mais pelo clima do que pelo enredo.
Nesse sentido, assistir deixou de ser um gesto de conclusão. Não se tratava mais de terminar algo, mas de estar ali enquanto o tempo passava. Assim, as telas cumpriram uma função silenciosa: não resolveram conflitos, não ofereceram respostas e tampouco organizaram o caos. Ainda assim, sustentaram o intervalo entre um dia e outro. E, muitas vezes, isso foi suficiente.
O Que Permaneceu Não Foi O Que Gritou Mais Alto
Curiosamente, aquilo que permaneceu não foi, na maioria das vezes, o que chegou com maior força. Pelo contrário. Em meio a tantos lançamentos pensados para gerar impacto imediato, foram os detalhes que ficaram. Um diálogo breve. Um olhar sustentado por alguns segundos a mais. Um silêncio respeitado. Uma cena que não se explicou.
Enquanto isso, muitas produções grandiosas passaram rápido. Chegaram cercadas de expectativa, ocuparam conversas por um curto período e, logo depois, se dissolveram. Dessa forma, o ano deixou claro que impacto não garante permanência. O que fica, muitas vezes, é aquilo que não tenta convencer nem disputar atenção — apenas acompanha.
Além disso, essa constatação deslocou nosso olhar. Passamos a valorizar menos o que impressiona e mais o que ecoa. Menos o que se impõe e mais o que insiste em voltar à memória sem aviso.
Curiosamente, aquilo que permaneceu não foi, na maioria das vezes, o que chegou com maior força. Pelo contrário, em meio a tantos lançamentos pensados para gerar impacto imediato, foram os detalhes que ficaram. Um diálogo breve, um olhar sustentado, um silêncio respeitado.
Inclusive, reflexões como as publicadas pela BBC Culture mostram como filmes e séries se tornam parte da experiência emocional do público justamente quando ultrapassam o impacto inicial e passam a ecoar no tempo.
O Excesso Também Ensina A Parar
Ao mesmo tempo, o volume de estreias aumentou de forma significativa. Novas séries, novos filmes e novas promessas surgiram quase semanalmente. Diante disso, algo se tornou inevitável: o cansaço. Não apenas físico, mas emocional. A sensação de que acompanhar tudo era impossível — e, mais do que isso, desnecessário.
Nesse contexto, deixar passar deixou de ser falha. Tornou-se escolha. Não assistir a tudo virou gesto de cuidado. Abandonar uma série no meio deixou de gerar culpa. Repetir algo antigo passou a fazer mais sentido do que insistir no novo apenas por obrigação. Assim, o consumo cedeu espaço à curadoria pessoal — mais lenta, mais seletiva, mais honesta.
Consequentemente, assistir passou a ser decisão, não resposta automática ao excesso.
As Telas Como Forma De Organizar O Tempo
Além de tudo isso, as telas também ajudaram a organizar o tempo de maneiras inesperadas. Um filme visto em uma noite específica passou a marcar aquele dia. Uma série acompanhada ao longo de semanas criou uma rotina emocional discreta. Um documentário assistido com atenção pediu pausa depois dos créditos.
Desse modo, assistir deixou de ser apenas entretenimento e passou a funcionar como experiência temporal. Não como meta cumprida, mas como algo atravessado. Cada história ocupou um espaço particular no ano, mesmo quando não foi lembrada em detalhes depois.
Entre Histórias, Intervalos E Silêncios
No fim das contas, o que este ano revelou não foi uma grande conclusão sobre filmes ou séries. Revelou, sobretudo, uma mudança de relação com as telas. Menos urgência. Menos necessidade de acompanhar tudo. Mais espaço para pausar, sentir e escolher.
Entre episódios, cenas e silêncios, aprendemos que nem toda história precisa terminar para fazer sentido. Algumas cumpriram seu papel apenas por terem estado ali em determinado momento. Outras ficaram incompletas — e isso também faz parte. Nem tudo precisa ser resolvido antes da virada do calendário.
O Último Dia Como Intervalo, Não Como Promessa
No último dia do ano, não há obrigação de decidir o que vem depois. Não é necessário escolher a próxima história nem formular grandes intenções. Há valor em reconhecer o que ficou — mesmo quando não sabemos explicar por quê. Há valor em aceitar que algumas experiências nos acompanharam apenas enquanto foi possível.
Talvez o gesto mais honesto seja esse: olhar para trás sem transformar tudo em lição e olhar para frente sem exigir respostas imediatas. Entre o que foi e o que ainda não começou, existe um intervalo. E é justamente nesse espaço que muitas histórias encontram lugar para permanecer.
Relembre Com A Gente
Ao longo do tempo, algumas histórias continuam nos acompanhando não porque falam alto, mas porque permanecem. Essa relação de companhia atravessa obras como O Iluminado, que transforma silêncio e repetição em experiência emocional duradoura. De maneira diferente, mas igualmente marcante, Pulp Fiction mostrou como narrativas fragmentadas podem se fixar na memória coletiva sem depender de linearidade ou explicação tradicional.
Já em outro registro, Mamma Mia! prova que nem toda permanência nasce do conflito: algumas histórias ficam porque se associam a momentos específicos da vida, a fases, encontros e afetos. São obras distintas entre si, mas unidas pela capacidade de continuar presentes — mesmo quando o tempo passa.
Esses títulos ajudam a entender por que certas experiências audiovisuais atravessam anos e contextos. Elas não exigem urgência. Apenas permanecem disponíveis na memória, prontas para serem revisitadas quando o momento pede.
E você?
Entre filmes, séries e silêncios, o que as telas te ajudaram a atravessar este ano?
Conte nos comentários o que ficou — mesmo sem nome, mesmo sem explicação.
